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Todos os anos no dia 24 de Agosto, realizava-se uma das festas mais populares e tradicionais de Goa, que era conhecida pelo nome de “ADAU”. Esta festa estava relacionada com a colheita das primeiras espigas de arroz e era celebrada pela comunidade da aldeia de Taleigão, no concelho de Ilhas. A realização desta festa remonta há muitos séculos possívelmente desde os primeiros tempos logo após a conquista de Goa por Afonso de Albuquerque e apesar de muitas vicissitudes por que tem passado, tem-se mantido vivas as tradições seculares da nossa gente. Para quem teve a felicidade de presenciar esta festa ao longo de vários anos podia constatar que nos últimos anos da década de cinquenta e principios de sessenta tinha havido um revigoramento com a adesão da população e diga-se em abono da verdade com crescente apoio das autoridades governamentais que acarinhavam todas as manifestações de índole cultural; com a invasão, ocupação e anexação de Goa pelas tropas da União Indiana em 18 de Dezembro de 1961 a festa foi aos poucos perdendo as suas características, diminuindo o entuasiasmo das populações e perdendo-se assim mais uma tradição genuinamente goesa. Vamos então recordar como se desenrolava esta festa: manhã cedo formava-se junto da Casa do Povo uma comitiva constituida pelos representantes da comunidade que era acompanhada por um cortejo de “potecares” (jogadores de arma branca) vestidos com trajos garridos, armados de enormes espadas muito antigas, uma charanga com tambores e cornetas e a bandeira nacional portuguesa, que se deslocava até a Sé Catedral situada na Velha Cidade de Goa, para depositar no altar-mor a espiga nova e o “avel” (arroz torrado com açúcar), assistindo de seguida a uma missa de louvor e agradecimento pelos benefícios recebidos. Depois de terminadas as cerimónias religiosas na Sé deslocavam-se a Basílica de Bom Jesus e oravam junto ao túmulo do Grande Apóstolo das Índias Orientais – S. Francisco Xavier, pedindo a sua protecção. Depois de um pequeno intervalo para retemperar as forças, dirigiam-se ao cais dos Vice-Reis, situado muito próximo do histórico Arco dos Vice-Reis onde embarcavam numa lancha dos serviços de navegação fluvial com destino a Pangim a capital de Goa na margem sul do Mandovi. Chegados a Pangim desembarcavam rápidamente e organizavam um cortejo que ao rufar dos tambores e sons das cornetas se dirigia ao Palácio de Hidalcão, onde se juntava grande número de pessoas. Defronte do palácio, na Avenida situada ao longo do rio Mandovi os “potecares” executavam ao ritmo dos tambores e cornetas algumas danças guerreiras que simulavam uma luta corpo a corpo simbolizando a conquista de Goa por Afonso de Albuquerque, sempre aplaudidos pela enorrme multidão de pessoas presentes; de seguida os representantes da comunidade entravam no palácio onde eram recebidos pelo Governador Geral e autoridades civis e militares. Um representante da comunidade proferia então um vibrante discurso patriótico, findo o qual oferecia ao Governador Geral um feixe de espigas enfeitadas com flores e o “avel” numa bandeja de prata. O Governador Geral agradecia a tradicional oferta das primícias do ano agrícola e aproveitava a oportunidade para realçar as qualidades de trabalho e dedicação, bem como a fidelidade da comunidade de Taleigão à Portugal. Terminada esta cerimónia no Palácio de Hidalcão a comitiva dirigia-se ao Palácio do Patriarca das Indias Orientais, Arcebispo de Goa e Damão e Primaz do Oriente, para igualmente oferecer ao nosso ilustre e venerando Patriarca as espigas e o “avel”, que muito sensibilizado agradecia este gesto tão simples e ao mesmo tempo tão genuino da comunidade de Taleigão. E assim terminava esta festa de “ADAU”, uma festa que tinha um lugar muito especial nas tradições e cultura da nossa Goa. |